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Equívocos e preconceitos envolvem a análise
dos
étimos da África
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África
é um continente. Essa afirmação banal
parece não ter a dimensão necessária
quando se estudam as palavras de origem africana. Esquece-se
de que um continente é composto por vários países
e, no caso da África, muitos deles
maiores que a França ou a Alemanha. E todos com diversas
línguas.
Ao dizer que uma palavra vem do italiano, poderia alguém
confundir essa língua com o francês ou com o
castelhano? No entanto, é freqüente ouvir a afirmação:
tal palavra em português tem origem bantu. Ora, bantu
não é uma língua, mas um grupo de quinhentas
línguas, grande parte delas bastante distintas umas
das outras.
Porém, a apresentação de étimos
(palavras que estão na origem de outras) mal definidos
parece comum quando falamos de línguas ágrafas
(sem escrita). No dicionário Houaiss, por exemplo,
lê-se na palavra cafundó: “origem africana,
porém controversa”.
Ocorreria a alguém declarar diante de uma palavra de
étimo desconhecido que tenha “origem européia”
sem identificar a língua ou o grupo de línguas
de que se trata? O que nos autoriza a dizer que cafundó
seja africana são apenas indícios sonoros –
a sílaba ca inicial, o fato de ser oxítona,
o encontro nd, comum nas línguas bantu.
Mas isso basta para acharmos que a palavra de fato seja africana?
E se ela for asiática ou mesmo americana, ou ainda
criada expressivamente? Como provar? Em vez de um conhecimento
de línguas africanas, temos, infelizmente, um preconceito
de sua sonoridade. Antes parece ser mais digno indicar nessas
palavras “origem desconhecida”.
Em
outros casos, o contorcionismo é tão grande
que chega a ser hilário. Assim, o Novo Dicionário
Banto do Brasil, de Nei Lopes, registra cafofo como um vocábulo
associado a significados os mais díspares, como “sepultura”
e “buraco de alicerce da casa”. E remonta esse
vocábulo a um termo quimbundo kifofo, que quer dizer
“cego” ou a ufofo, “cegueira”. A relação
entre esse sentido original e os significados de cafofo não
é evidente. Para Lopes, isso ocorreria porque cafofo
“designa lugar ou compartimento sem janela, i.e. ‘cego’
ou por se tratar de orifício para se olhar ‘com
um olho só’”.
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