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COMO DIZIA O DITADO
 

Saudades de Judith


Q
uando um aluno diz “professor, achei a origem da expressão ‘pensar na morte da bezerra’”, significa, antes de tudo, que ele pesquisou, e isso é bom. Mas nem sempre as fontes são muito confiáveis, o que pode ser um problema. Com a internet, todo tipo de histórias encontra espaço para proliferar livremente. “Pensar na morte da bezerra” é um excelente exemplo disso.


Em seu Mas Será o Benedito?, Mario Prata diz que a origem daquela expressão está na Bíblia. Ele explica que Jacó e seu filho tinham uma bezerra, que foi sacrificada. Mas o próprio Prata avisa, no começo de seu livro, que muitas das explicações não são exatamente verdadeiras.

 

Depois de ter lido o escritor, algum gaiato resolveu copiá-lo para a internet, mas mudou Jacó para Absalão. Lá, a nova explicação foi repetida por diversas páginas, às vezes com algumas adaptações. Absalão, quando seus bezerros acabaram, pegou sua bezerra e a sacrificou ao Senhor, mas ficou triste e “acabou pensando na morte da bezerra”. Outra versão diz que quem ficou triste foi o filho de Absalão. Na página que o aluno encontrou ou, mais provavelmente, aquela que mais despertou seu interesse, o autor disse que Absalão tinha um amor platônico pela bezerra – “Judith”, a jeitosa, conta o autor do texto. O tom do blog é de humor, mas é grande a chance de que algum leitor leve a sério. E até agora não se descobriu nada que comprove a paixão de Absalão por bezerras...

 

Há, sem dúvida, sacrifícios a Deus descritos na Bíblia. Também há Jacó e Absalão, mas não a descrição do arrependimento de qualquer um deles (procure em Gênese ou em II Samuel). O mais curioso disso é que Prata diz, logo no comecinho de seu livro, “Invenção pura. Não leve a sério. Mas divirta-se!”. E o livro é, sem dúvida, divertidíssimo.


A expressão “pensando na morte da bezerra” pode não ser bíblica – ao menos não se encontrou nenhum trecho que a justifique – e, por isso, deixa a curiosidade alerta. Esse é um dos problemas de estudar a origem de expressões: nem sempre se chega a uma origem confiável, da qual se possa ter certeza.

 

Há uma hipótese de que, durante a Inquisição, teria vindo de Torah, que gerou “tourinha”, e daí, bezerra, mas é difícil encontrar registros que o comprovem. O mesmo vale para a expressão “vestir a carapuça” – que teria surgido também durante a Inquisição, e se referiria ao fato de que muitos inocentes foram condenados à morte, acusados de bruxaria ou heresia. E, neste aspecto, para ajudar a encontrar uma origem, a internet não ajuda muito.




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