 |
Os 40 anos da publicação do repressor Ato
Institucional nº 5 trazem de volta o debate sobre
a censura e quanto é inerente à linguagem humana
controlar o próprio pensamento
|
“A única limitação válida
que se concebe para a liberdade
é a imposta pela verdade.”
Émile Zola
Censurar, proibir e reprimir
são atitudes antipáticas,
porque geralmente são vistas
pela sociedade como inimigas
da liberdade individual, da
criatividade e da verdade. Este
ano, por exemplo, é o 40º aniversário
de um dos mais violentos
atentados contra os direitos
básicos da cidadania – a promulgação,
em 13 de dezembro
de 1968, do Ato Institucional
nº 5 pelo regime militar. Entre
outras barbaridades do mesmo
quilate, ou até piores, como o
fechamento do Congresso Nacional,
o chamado AI-5 instituiu
a censura prévia no país.
O aniversário, certamente,
será um momento para o país
relembrar sua história e refletir
sobre os rumos da democratização
brasileira (veja o quadro “A
ameaça de Peter Pan”). Mas,
nesse campo, é preciso cuidado
com os raciocínios automáticos:
trata-se de um assunto espinhoso
e arisco, que deve ser
tratado com atenção e respeito
máximos. A censura esconde
dilemas e armadilhas sutis, que
podem causar mais confusão do
que esclarecer os problemas relacionados
a ela.
Até porque nem todo tipo de
censura representa uma interferência
odiosa na vida da população, como aconteceu com o próprio AI-5, entre outras instituições sociais contra as idéias
e a livre expressão do pensamento.
Um exemplo simples de
censura socialmente aceitável – ou até cosiderada necessária
para o bom andamento da vida
social – é a tentativa de proteger
crianças contra filmes, livros
e outras manifestações do
pensamento que possam incitar à violência ou outras situações
consideradas prejudiciais à formação
dos jovens.
Por outro lado, existem formas
de censura que, apesar de
serem, em princípio, tão odiosas
quanto a censura política,
se tornam praticamente invisíveis
no interior do corpo social.
Ela age sem que os responsáveis
sequer se dêem conta
do que estão fazendo. É o caso,
entre outros, dos preconceitos,
que são, por definição, verdades
falsas que, quando se disseminam
dentro de um grupo
ou comunidade, tendem a hostilizar
formas de pensamento e
de comportamento que, de alguma
forma, não se conformam àquela “verdade”. O preconceito
como fonte de censura provocou
polêmica, recentemente,
quando surgiram propostas de
vigiar e disciplinar a internet.
A psicóloga estadunidense Sara
Fine participou desse debate e
argumentou contra as propostas
porque acredita que elas se baseiam em preconceitos. Esse
tipo de censura, explicou ela, é
essencialmente um mecanismo
de defesa, ou seja, uma reação
irracional. Por ser “inconsciente,
ou uma compulsão oculta”,
essa reação pode ser disparada
por medo de ameaças reais,
um exagero de ameaças reais,
ou apenas imaginadas. Não importa:
o preconceito segue a sua
própria lógica enveredando por
tentativas de controlar e punir.
|