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O governo brasileiro recentemente
aprovou e lançou
a Agenda Social Quilombola.
A medida ainda pode causar
alguma discussão porque toca
em questões polêmicas de
nossa sociedade. Provavelmente
vinda do quimbundo, kilombo
quer dizer “acampamento”,
mas do século 15 ao 17 assumiu
também a conotação (não
só no Brasil) de “organização”
e, muitas vezes, de “exército”.
Em tais organizações, viviam
os escravos fugidos.
Ainda no viés etimológico, o
latim esclavus deu origem a eslavo,
termo que designa o povo
europeu que foi dominado e submetido
a trabalhos forçados por
conquistadores germanos e bizantinos
do início da Idade Média.
Daí veio “escravo”. Curiosamente,
ainda hoje, em inglês, há
a palavra slave para “escravo”.
A escravidão foi proibida em
1888, com a Lei Áurea, e desde
então não mais existem, em tese
e oficialmente, escravos em território
nacional. Há, sim, cárcere
de regime privado em situação similar à da escravidão. E muito.
Durante sua vigência, a escravidão
serviu também para forjar
a mentalidade racista que recorrentemente
encontra espaço na
vida moderna, mesmo que tal
mentalidade seja punível por lei
e permaneça, pelo bom senso,
banida. Mas algo ligado ao preconceito étnico ainda ressurge
sutilmente, sem muita consciência
de sua origem.
É o caso de “fazer nas coxas”.
Essa expressão, entre tantas outras,
evidencia essa tradição inconsciente
por parte do falante.
Restam, por isso, em nossa fala
do dia-a-dia, heranças racistas,
preconceituosas, muitas em nossos
ditados e nada inconscientes.
Diz-se “preto de alma branca”
àquele que teria o mérito de ser “uma boa pessoa” – má pessoa
(para não dizer execrável) fica
sendo quem usou essa lamentável
expressão. Felizmente, é cada
vez menos usada.
Parece, contudo, haver alguma
confusão entre a etnia e a
cor. Historicamente, na sociedade
ocidental, a ausência de luz,
a escuridão, representou por
muito tempo o desconhecido e
o assustador. Sociedades primitivas
aprenderam a temer a negra
noite que se abatia sobre todos. É difícil saber se isso pode soar
ofensivo a alguém, já que não se
busca o demérito pessoal.
O mesmo se aplicaria a outras
expressões, como “mulata”
e “denegrir”, já há algum tempo
banidas do vocabulário politicamente
correto. Parece haver
um abismo entre o que se quer
dizer hoje e a origem etimológica
dos termos. Se “mulata” veio
de “mula” – obviamente depreciativo
e ofensivo –, dizer que a
expressão “o desfile de mulatas” seria uma ofensa ou que Oswaldo
Sargentelli (1924-2002) tenha
pensado de maneira racista sobre
suas dançarinas também pode
ser exagero.
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