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IDIOMA ONIPRESENTE
 

Do pan japonês ao limonada
búlgaro, o Português influencia
mais línguas do que se pensa –
muito por conta da expansão
ultramarina portuguesa entre
os séculos 15 e 17


H
á muitas palavras portuguesas circulando pelo mundo afora, mas não são tão originais no vocabulário quanto se imagina. A maioria dos vocábulos de origem culta – usados nas ciências, nos assuntos universitários mais diversos, nos jargões técnicos, na política, na religião e nas artes – é eruditismo, derivado de raízes e/ou afixos latinos ou gregos. Esse léxico entrou na península Ibérica na baixa Idade Média, provindo do Italiano da época do Renascimento, da Língua Inglesa do decorrer dos dois últimos séculos e, principalmente, do Francês, antes mesmo da fundação de Portugal. A capacidade criativa do Português no campo das palavras cultas é impressionantemente pequena – o que chega a ser decepcionante para os que se inebriam com um discurso patriótico ou nacionalista.


Quem trabalha com Etimologia, porém, logo se dá conta desse fato. Por outro lado, antes de essa enxurrada de eruditismos entrar no Português, ou seja, antes de a dinastia de Avis ascender ao trono português, no final do século 14 – portanto, antes do Leal Conselheiro de dom Duarte, antes de Fernão Lopes e de Camões –, havia uma língua medieval na qual foram compostos os cancioneiros. O belíssimo cancioneiro das Cantigas de Santa Maria, inexplicavelmente pouco mencionado nas aulas de Literatura Portuguesa, apresenta mais de 400 peças (algumas muito longas) de uma beleza ímpar. Todas redigidas em Português no segundo quartel do século 13 por muitos trovadores, embora conste apenas a assinatura de Afonso X, o Sábio, rei de Leão e Castela (1221-1284).

 

Apesar de sua extensão, o vocabulário das cantigas contém pouco mais de 20 mil palavras não-lematizadas, ou seja, um substantivo pode aparecer sob duas formas (“igreja”, “igrejas”); um adjetivo, sob quatro (“branco”, “branca”, “brancos”, “brancas”); e um verbo, sob algumas dezenas (“canto”, “cantas”,
“canta”, “cantava”, “cantávamos”, etc.). Sem falar que a mesma palavra é grafada de várias formas (“igreja”, “jgreia”, “ygreja”, “ygreia”, “eigreia”, etc.). Pode-se supor, desse modo, que o número de palavras utilizado para compor todo o cancioneiro não chegue a 3 mil. Essa pobreza lexical é compensada, contudo, com uma maior polissemia, ainda presente no Português falado, que permite a leitura do mesmo verso de duas ou mais formas distintas.


Os léxicos extensos são, portanto, construtos artificiais, obtidos por meio de um somatório de contextos, experiências e jargões que, embora presentes na complexidade das sociedades modernas, não são ativos no discurso diário.




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