newsletter
 

nome:

e-mail:













 
ENSINO DE RESISTÊNCIA
 

O doutor em Filologia da USP relembra a ditadura militar
e critica o atual desprezo para com a Educação, espécie de extensão involuntária da censura dos anos 60 e 70


U
m dos grandes professores de uma das maiores universidades do Brasil, Osvaldo Humberto Leonardi Ceschin observou de perto diversos períodos do magistério e do meio acadêmico brasileiros. Formado em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (1969) e doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (1980), Ceschin teve participação direta nos movimentos estudantis e intelectuais que se manifestaram contra o golpe militar de 1964. Atualmente é professor-assistente doutor da USP, e seu trabalho, na área de Letras, aborda em especial Filologia Portuguesa, Literatura Medieval e História Ibérica. Nesta entrevista, o professor discorreu sobre o papel do ensino diante da ditadura militar e suas conseqüências. O momento exigia que a palavra fosse fruto de escolhas muito bem pensadas, pois o menor desvio resultaria em tragédias. Um momento em que muito havia para ser dito, mas que não se podia dizer. Hoje, como indica o professor, as liberdades são maiores, contudo não plenas – o que era causado
pela repressão militar, hoje, tem origem na alienação social.

 

DISCUTINDO LÍNGUA PORTUGUESAO senhor disse, certa ocasião, que antes os alunos não podiam ouvir o que os professores tinham para falar sobre o mundo, sobre a sociedade, e que hoje os professores podem falar, mas não há quem queira ouvi-los. Como é isso?


OSVALDO CESCHIN – Eu me lembro que depois do golpe militar de 64 houve uma mudança de comportamento, sobretudo no magistério. Eu era aluno e já acompanhava as atividades e as aulas secundárias, mas também dava aula de substituição eventualmente, sem contrato. A gente tinha muito receio do que repercutia nas falas, pois havia uma censura, que era imposta por um clima criado no País com a ditadura.

 

DLP – Isso dificultava muito o ensino da Língua Portuguesa?


OC – Eu acho que atrapalhava, porque não podia comentar abertamente os textos que podiam ensejar reflexão sobre a sociedade, sobre questões políticas, sobre o destino da nação, sobre problemas sociais e políticos... O Brasil continua tendo uma deficiência em outra escala, mas com a mesma dramaticidade.É um país que está sempre sofrendo,é um país de sofrimento. Os brasileiros, de modo geral, vivem, desde a Colônia, em sofrimento, e a divulgação disso [dos textos que podiam ensejar reflexão], da fala, da linguagem, da grande produção de conhecimentoé um privilégio de poucos. A transmissão de informação para esses vários níveis sociais se dá de uma forma muito precária, verticalmente, o que não promove muito o aperfeiçoamento das informações e das reflexões.

 

DLP – Esse tipo de transmissão caberia às escolas?


OC –
É claro que eu não estou pensando que a escola seja a principal formadora da consciência, não é. Mas ela é, de certo modo, o lugar onde acontece a tomada do papel social e político do homem– quer dizer – da sua consciência cidadã. É o lugar em que a sociedade é mais bem analisada, é descrita, mostrada... Muitas vezes é a única porta de entrada para a consciência, na medida em que você tem uma censura imposta por um sistema autoritário, que já existia, que [ainda] existe em outras instâncias. Mesmo num regime democrático, à medida que se tem a imposição de uma ditadura, há uma restrição à circulação de informações e, com isso, uma diminuição da sua eficácia. Isso ainda atua de uma forma mais perversa quando você pensa que há também uma preocupação com a autocensura, com aquele silêncio que o indivíduo se põe, com o hábito de não pensar sobre essas questões críticas. Isso me parece que foi o problema mais sério em relação ao ensino em geral e, sobretudo, ao ensino de Língua.

 




Copyright © 2005
Escala Educacional