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País inicia movimento de recuperação
e registro dos idiomas falados em seu território
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Línguas são artefatos históricos, construídos coletivamente ao
longo de centenas ou milhares de anos. É por meio dos idiomas
que as sociedades humanas, definidas como “comunidades lingüísticas”,
produzem a maior parte do conhecimento de que dispõem.
E por meio da língua são construídos os sistemas simbólicos
de segunda ordem, como a escrita ou a Matemática, que permitem
a ação humana sobre a natureza e sobre os outros homens.
Línguas são, nesse sentido, um tipo muito especial de saber:
constituem ao mesmo tempo o hardware e o software para a produção
dos outros conhecimentos. Cada idioma sintetiza, nas categorias
desenvolvidas historicamente e nos seus modos de operação
discursiva, experiências únicas e insubstituíveis.
Não são, como objetos – e muito menos como objetos culturais–, de fácil percepção para a maioria. Quando se usa certo
idioma, é difícil de perceber seu próprio uso, estamos tão dentro
do uso como um peixe dentro da água. As línguas são, assim,
o “ponto cego” da nossa vida social.
Quando se usa certo idioma não se percebem, exceto em pontos
muito específicos, as diferenças convencionais de classe, de gênero,
de etnia, de religião. As línguas são, assim, o “ponto cego” da
nossa vida social.
Diversidade
No entanto, os idiomas representam uma das maiores expressões
de diversidade humana: há aproximadamente 6,8 mil
línguas no mundo, distribuídas de forma assimétrica entre os
países. Embora 94% das nações sejam plurilíngües – isto é, tenham
em seus territórios diferentes comunidades lingüísticas –
oito países concentram mais da metade das línguas do globo:
Papua-Nova Guiné, Indonésia, Nigéria, Índia, México, Camarões,
Austrália e Brasil.
No Brasil são faladas em torno de 210 línguas, por aproximadamente
2 milhões de cidadãos brasileiros que não têm o Português
como língua materna – e que nem por isso são menos brasileiros.
Cerca de 190 idiomas são autóctones – isto é, indígenas de
vários troncos lingüísticos, como o Apurinã, o Xokleng, o Iate –;
outros 20 constituem línguas alóctones – de imigração, que são
falados no Brasil ao lado das línguas indígenas e do Português,
língua oficial há 200 anos: é o caso, por exemplo, do Alemão.
O fato de termos aprendido que o “normal” é ser monolíngüe
e de também enxergar o plurilingüismo como uma anomalia é mais
um produto da História da criação do Estado-Nação nos últimos
300 anos, quando se estabeleceu o desiderato de “um Estado, um
Povo, uma Língua”, tão prejudicial à construção da cidadania.
O Estado-Nação moderno e monoglota foi responsável pelos
maiores glotocídios (assassinato de línguas) de toda a História até
o presente momento. Calcula-se que se falavam no que é hoje o
território brasileiro, em 1.500, cerca de 1.080 línguas, das quais
restaram atualmente 15%. Os outros 85% desapareceram sem
deixar vestígios, já que se tratava de línguas ágrafas (sem escrita),
como são, aliás, a maioria das línguas do mundo.
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