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A persistência de vocábulos como “pizza” prova que a história dos
idiomas nem sempre é tão lógica como gostaria a Gramática tradicional
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É bastante comum associarem-se língua e lógica. Muitas vezes
se fala de uma “lógica da língua” ou sobre um idioma ser mais lógico
que outro, e por aí vai. Na verdade, a palavra “lógica”, assim
como todas as outras, adquiriu sentidos para além da sua significação.
A Lógica é uma disciplina bastante distinta da Lingüística, apesar
de sempre estarem associadas (pelo menos para os lingüistas).
O caminho de suas origens é bastante distinto: a Lingüística
nasceu da Gramática, que nasceu da Filologia, que, por sua vez,
nasceu da Filosofia. Já a Lógica nasceu da Retórica, que por sua
vez nasceu na Política.
Hoje em dia, os lógicos trabalham com objetos, cálculos de
predicados, funções e conectivos, adquiriram um grau de precisão
incrível e distanciaram-se das línguas naturais. A Lógica não prescinde,
contudo, de uma metalinguagem que, em última instância,é o próprio idioma natural. Línguas extremamente regulares, como
o turco, ou artificiais e bastante simples, como o esperanto, estão
longe de ser tachadas de lógicas. No entanto, esse mito da lógica
das línguas nasceu no século 17 e ampliou-se no século 18. A
Gramática, nascida descritiva, tornou-se normativa, mas adquiriu
feições logicizantes nesse período, quando se tolerava cada vez
menos a flutuação das variantes na norma culta.
Elimine o inútil
O gramático francês Claude Favre de Vaugelas (1585-1650), um dos grandes mentores desse tipo de visão, teria dito
ao morrer, segundo uma anedota, “je m’en vais, je ne m’en vas
pas” (eu me vou, mas eu não me vai), mostrando que diante de
duas formas, je vais e je vas, devia-se optar pela primeira. A caça
aos sinônimos dentro do espírito do inutilia truncat (do Latim “elimine o que é inútil”) – fosse nas Artes, na Política ou na
religião – era a base dessa nova visão.
Dessa forma, o Português antigo tinha, até então, formas como“eu perdo”, “eu perco”, ou então “eu pido”, “eu peço”, e somente
as últimas foram aceitas pela norma culta. Regras logicizantes que distinguem “onde” de “aonde” são extremamente
artificiais, uma vez que Camões e Vieira não as seguiam. A Gramática
deixa de ser a arte de imitar os bons autores para tornarse
uma Ciência.
Há quem creia nisso ainda hoje, quando tenta remendar o
idioma, tentando afirmar que o certo seria “pernas, pra que vos
quero” em vez de “pernas, pra que te quero” (respeitando, assim,
a concordância de número), ou ainda dizendo que “perigo
de morte” seja mais lógico do que “perigo de vida” (e a mídia
aceita os argumentos e divulga a forma “logicamente” correta),
ou então que se deve “correr atrás do lucro” e não “do prejuízo”,
uma vez que só devemos correr atrás de coisas boas (embora
a expressão seja consagrada).
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