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Entenda as falácias: raciocínios ambíguos reincidentes em lógicas
argumentativas, discursos religiosos e defesas idealistas – como a
expressão marxista que inspira o título acima
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Diz Alice:
– Não acredito em Deus.
Beto retruca:
– Mas você ama seus pais! Você não acredita no
amor?
Depois de pensar um pouco, Alice responde:
– Acredito, sim.
Beto sorri, triunfante:
– Então:Deus é amor. Se acredita no amor, então você
acredita em Deus.
Creio que muita gente já participou, ou pelo menos
foi testemunha, de um diálogo parecido com esse. Caso
você seja uma dessas pessoas, talvez tenha sentido intuitivamente
algo de errado no rumo da conversa, mas
não conseguiu, na hora, pôr o dedo na ferida.
O argumento de Beto é chamado “falacioso”, ou seja,é um raciocínio que contém um escorregão no uso
da lógica, na organização do pensamento ou na aplicação
da linguagem.
Embora, na origem latina da palavra, falácia implique
má intenção, nem toda falácia realmente embute um desejo
explícito de enganar. A simples falta costumeira de
pensar criticamente – de analisar com calma aquilo em
que se acredita e o que se deseja dizer – faz da aceitação e
do uso de falácias um hábito quase automático.
Algumas falácias são tão freqüentes e estão de tal forma
arraigadas no pensamento comum que, ao longo dos
séculos, ganharam belos nomes em Latim, como non sequitur,
petitio principii e post hoc, ergo propter hoc (veja o
quadro “Quatro mitos latinos”). Você provavelmente não
verá esses nomes no noticiário da televisão, nos comentários
sobre o último jogo do seu time ou no próximo discurso
de uma grande autoridade, mas é quase certeza que falácias correspondentes estarão lá. Talvez, depois
de ler este artigo, você seja capaz de identificá-las.
Falso irlandês
Não existe nenhuma ligação obrigatória entre palavra
e significado. Nada impede a existência de uma tribo
em algum lugar que use um som idêntico ao da palavra“ar” para se referir às pedras no chão. Não há nada de errado
nisso: “ar” é só um som, e seu significado é determinado
pela cultura que o utiliza.
Geralmente nos damos conta do fato em situações
de humor – voluntário ou não – como quando o cineasta
George Lucas decide povoar seus filmes de Guerra
nas Estrelas com personagens como o capitão Panaka e
o conde Doku. Mas é essa falta de ligação precisa entre
palavra e significado que está na raiz da falácia usada
por Beto em seu diálogo com Alice.
Quando diz não acreditar em Deus, Alice tem um significado
para a palavra “Deus” em mente – pode ser, por
exemplo, o homem de barbas brancas, reclinado sobre
uma nuvem, que aparece na pintura de Michelangelo para
o teto da capela Sistina.
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