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ENTRE A PRESSA E A ARTE
 

O jornalismo pragmático e objetivo dos anos 80 e 90 volta a dar lugar à forma mais livre e elaborada que marcou o gênero no passado


L
embro-me de um tempo em que jornalistas viam como missão precípua da profissão elevar os leitores, iluminá-los. Estou com saudades.


Mino Carta, em O Castelo de Âmbar (Record, 2000).


Nas linhas acima, o diretor de redação da revista Carta Capital engrossa o coro de profissionais que evocam um passado glorioso, época do chamado “jornalismo artesanal”, movido mais pelos interesses do povo do que os econômicos ou políticos. Tempo em que o jornalista podia sair às ruas, olhar e conversar com as pessoas, e não entrevistá-las por telefone, de forma apressada, por causa do prazo apertado, o deadline.


O jornalista podia escrever seu texto em linguagem mais elaborada, rica e criativa, diferente da atual forma“taquigráfica e burocrática”, criticada por Mino Carta. Ao contrário da tendência moderna, acreditavase que os leitores não precisariam de textos “mastigados”, acompanhados de gráficos e tabelas; eles teriam intelecto e disposição para acompanhar a matéria, sem necessidade de ler a informação mais relevante no primeiro parágrafo (o lead). Leitores inteligentes, jornalistas iluminados, textos bem escritos. Um tempo que ficou para trás?

 

Ideologias antagônicas
Eu acho que no jornalismo não dá para você ter regras, fórmulas,
normas muito rígidas. Aí é uma discussão sobre se o jornalismo se aproxima mais de uma técnica ou de uma arte (...) e acho que é mais para o lado da arte.


Declaração de Ricardo Kotscho para Carlos Eduardo Lins da Silva, em Mil Dias: Os Bastidores da Revolução de um Grande Jornal (Trajetória Cultural, 1988).


Um caminho interessante para estudar a linguagem jornalística é
analisar como foram concebidos os estilos romântico (ou artesanal) e o moderno (ou tecnológico). Eles representariam modos distintos de exercer a prática – duas ideologias antagônicas.


A própria análise do primeiro caso lhe confere uma aura épica, romanceada: seria uma forma de jornalismo que representaria sua essência, a única vinculada a ideais nobres, distante de interesses mercantilistas. Dotado de valor simbólico, o jornal seria um produto transformador. Da mesma forma, o jornalista seria um indivíduo e não uma máquina de produzir textos. A linguagem, portanto, era mais trabalhada, expressiva, pois se apostava mais no conhecimento do leitor. Era uma linguagem mais próxima da literária.


O jornalismo moderno, por sua vez, impõe uma nova lógica, que implica não apenas mudanças na estrutura do jornal (inovações técnicas), mas também uma transformação no perfil e no texto do jornalista. Muda também a avaliação sobre as capacidades interpretativas do leitor, sobre o que este gostaria de encontrar nos jornais (apenas fatos“espetaculares” e importantes) e sobre como esses fatos deveriam ser apresentados (predomínio da pirâmide invertida, conceito que parte dos fatos mais relevantes para os de menor importância). Os textos revelam um leitor “preguiçoso”, que precisaria de um excesso de pormenores, como se não pudesse acompanhar um texto mais elaborado.


A Folha deve poupar o trabalho do leitor.Deve relatar todas as hipóteses em torno do fato em vez de esperar que o leitor as imagine.Deve explicitar cada aspecto da notícia em vez de julgar que o leitor está familiarizado com ele. Deve organizar os temas de modo que o leitor não se surpreenda com assuntos correlatos em lugares distintos do jornal (...). Cada texto do jornal deve ser redigido a partir do pressuposto de que o leitor não está familiarizado com o assunto.


Manual Geral da Redação da Folha de S.Paulo (Grupo Folha da Manhã, 1987).




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