newsletter
 

nome:

e-mail:













 
O DITO PELO NÃO DITO
 

É curiosa a capacidade humana de ouvir e reinterpretar palavras e expressões a ponto de transformá-las em frases absurdas e engraçadas


O
processo pelo qual passam algumas expressões populares – modificadas muitas vezes por um ouvinte desatento – é um dos mais curiosos fenômenos da língua. Ele mostra como as mensagens dependem tanto de quem as emite quanto de quem as recebe. Um caso interessante é o que deu origem à famosa expressão “cuspido e escarrado”.


Há quem diga que veio de “esculpido e encarnado” e – por causa do “telefone-sem-fio” da linguagem do dia-a-dia – virou “cuspido e escarrado”. Nem faz, aliás, muito sentido dizer que um filho teria sido“cuspido e escarrado à imagem do pai”, não é? Esculpidas e encarnadas, por outro lado, seriam as imagens de santos nas igrejas. Esculpidas e perfeitas – quase como reencarnadas.


Outra corrente defende que a expressão teve origem em “esculpido em carrara”. “Carrara” pode fazer referência à perfeição das esculturas de Michelangelo, pois é o nome de uma localidade na Toscana, Itália, cujo mármore de excelente qualidade, que ali ocorre em abundância, teria sido bastante usado pelo célebre escultor da Pietà.

 

Do mesmo modo que as teorias sobre a semelhança são aceitáveis, ainda é possível que “cuspido e escarrado” tenha outras explicações. O dicionário Houaiss chama a atenção para o fato de que existe em Francês tout craché (“todo escarrado”); em Italiano nato e sputato (“nascido e escarrado”); e em Inglês spit and image of ou the spitting image of (“o cuspe e a imagem de” ou “a imagem cuspida de”).

 

Sobre isso, Alain Rey e Sophie Chantreau afirmam, no Dictionnaire des Expressions et Locutions (“Dicionário das Expressões e Locuções”), haver clara relação entre esses termos e sua ocorrência em vários idiomas. Para os autores, o ato de cuspir, em muitos povos, significa a criação, a geração. Por extensão, também se ligaria à fala: “nesse plano, tout craché corresponderia a ‘que se pode exprimir ou descrever de maneira idêntica’”.


Trocando de biquíni
Não é impossível que esse processo de substituição de palavras por semelhança sonora tenha ocorrido. E todos os dias nos deparamos com novos exemplos. Quem não se lembra da canção Noite do Prazer, de Claudio Zoli? Na letra original lia-se “Na madrugada a vitrola / rolando um blues / Tocando B. B. King sem parar”. Mas muita gente, na pista de dança ou do meio da platéia no show cantava (e ainda canta): “Na madrugada a vitrola rolando um blues / ‘Trocando de biquíni’ sem parar”.

 

E Lágrimas de Chuva, do Kid Abelha? De “Eu dou plantão dos meus problemas / Que eu quero esquecer”, tornou-se “Eu ‘tô plantando’ meus problemas / Que eu quero esquecer”. EmHomem Primata, dos Titãs, o verso “Homem primata / capitalismo selvagem” virou facilmente “Homem ‘que mata’ / capitalismo selvagem” ou “Homem primata / ‘capitaliza’ o selvagem”. “Só love, só love”, de Claudinho e Buchecha, se transformou, com um pouco de imaginação, em “Salário, salário”. Os versos “Brasil, meu Brasil brasileiro / Meu mulato inzoneiro / Vou cantar-te nos meus versos” de Aquarela do Brasil, de Ari Barroso, também sofreram modificação ao tornarem-se “Brasil, meu Brasil brasileiro / Meu mulato ‘estrangeiro’ / Vou cantar-te nos meus versos” – “inzoneiro” é aquele “que ou quem é sonso, manhoso; enredador”, segundo o Houaiss.




Copyright © 2005
Escala Educacional