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A VOZ DO BRASIL
 

Acusado constantemente de cometer “erros”, Lula tem, na verdade, se distanciado cada vez mais da fala popular que o consagrou


F
oto de capa na maioria dos jornais de 23 de julho de 2005: sorriso largo, broche com a bandeira do Brasil no paletó azul, o presidente Lula almoçava no bandejão da refinaria da Petrobras em Duque de Caxias (RJ). De uniforme cinza com detalhes em verdeamarelo, trabalhadores o observavam – sorrindo também, a maioria. Lula falava, pela primeira vez de forma mais incisiva, sobre o escândalo do “mensalão”, que explodira havia cerca de um mês e meio: “Eu conquistei o direito de andar de cabeça erguida, neste País, com muito sacrifício. E não vai ser a elite brasileira que vai fazer eu baixar a minha cabeça”.


A frase inspirou a manchete da Folha de S.Paulo: “Elite não me fará baixar a cabeça”. Como vemos, ao sintetizar a fala do presidente, a manchete também opera sobre ela ao menos três interferências gramaticais. Primeiro, o substantivo“cabeça” não aparece mais com o pronome possessivo “minha” (pode não ter sido intencional, mas o jornal, com isso, segue a antiga regra, que preconizava não empregar possessivos com partes do corpo). A locução verbal “vai fazer”, bastante comum, assume a forma cerimoniosa“fará”. E o pronome “eu”, da construção “vai fazer eu baixar a minha cabeça”, torna-se “me” em “Elite não me fará baixar a cabeça”. De certo modo, portanto, a manchete do jornal “corrigiu” a fala do presidente.

 

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