 |
Aumenta
a pressão para que preciosismos e arcaísmos
sejam eliminados da linguagem jurídica
|
Os
diferentes modos de usar a língua portuguesa não
raro são objeto de polêmica. Nos últimos
tempos, assistimos a debates em torno da proposta de proibição
do uso de “estrangeirismos”, a críticas
ao “gerundismo”, e mais recentemente as atenções
se voltaram para a linguagem usada pelos profissionais do
Direito, também conhecida como “juridiquês”.
A discussão começou quando a Associação
dos Magistrados Brasileiros (AMB) designou uma comissão
para a “reeducação lingüística”
dos operadores do Direito. Nessa perspectiva, recomendou-se
aos profissionais da área, por exemplo, evitar a ordem
indireta na construção dos enunciados, bem como
o emprego de palavras arcaicas ou em desuso. Para alguns,
isso implicaria empobrecimento da linguagem jurídica;
para outros, a sua democratização.
Técnica
X arcaísmo
A polêmica sobre o “juridiquês”, em
particular, merece algumas considerações que
podem ser estendidas para outras “linguagens técnicas”.
Primeiro, a adequação ou não da terminologia
jurídica não deve ser avaliada em si mesma,
ou seja, esta depende da situação concreta de
comunicação: o que está sendo dito e
para quem está sendo dito.
Imagine um advogado falando a outro: “a sentença
transitou em julgado”. Como os dois são da mes-ma
área, nenhum problema na comunicação.
Falando a um leigo, seria mais adequado dizer que a decisão
do juiz não pode mais ser contestada, é definitiva.
O exemplo coloca diante de nós duas questões
que estão, em parte, sobrepostas: a situação
concreta de comunicação e o uso da linguagem
técnica, da terminologia especializada. Somente analisando
essas duas variáveis é que podemos julgar sobre
a adequação ou não do enunciado. A escolha
das palavras, assim, deve se ajustar ao interlocutor (considerando
seu nível social, seu grau de instrução,
etc.).
Outra questão importante e muito comum é a confusão
do emprego de termos técnicos com o uso de palavras
arcaicas. Imagine agora um advogado dizendo a outro o seguinte,
a respeito de um cliente: “o réu vive de espórtula,
tanto que é notória sua cacosmia”. Se
você não é do meio, seguramente não
saberia dizer com outras palavras o que ouviu. Aliás,
muitos do meio também não conseguiriam traduzir
o enunciado. Seria muito mais fácil compreender a mensagem
se, em lugar de “espórtula”, o advogado
dissesse que o réu dependia de donativos; e, em vez
de “cacosmia”, afirmasse que vivia em ambiente
miserável.
|