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Se
fizéssemos uma lista dos dez
maiores mistérios da humanidade,
certamente o surgimento
da linguagem se destacaria
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A
linguagem verbal é marca forte, constitutiva, distintiva
da nossa espécie. Por isso, a discussão de suas
origens está intrinsecamente ligada às discussões
da origem da própria espécie humana. Dispomos
hoje de boa quantidade de fósseis, fornecedores de
evidência material interessante para hipóteses
sobre os longos e complexos caminhos da evolução
até o surgimento do Homo sapiens.
Temos, por exemplo, indícios convincentes de que nossa
espécie se originou nas savanas do leste da África
e se espalhou pelo planeta seguindo rotas que a levaram à
Europa e à Ásia e desta à América
e à Oceania. Essas rotas têm sido estabelecidas
em parte pelo estudo do DNA das populações.
Com
base nesses dados, os paleontólogos têm sugerido
que o Homo sapiens surgiu na Terra há apro-ximadamente
100 mil anos, embora se calcule que o ramo hominídeo
dos primatas tenha se separado há 6 milhões
de anos ou mais.
Igualmente,
dispomos hoje de precioso acervo de objetos criados pelos
humanos (ferramentas e utensílios domésticos,
por exemplo) e de registros pictóricos que nos permitem
sustentar hipóteses plausíveis sobre os caminhos
percorridos pela humanidade na construção de
sua cultura material e simbólica.
Seguindo
essas pistas, os antropólogos costumam registrar um
florescimento cultural bastante significativo por volta de
50 mil anos atrás. Para alguns, esse florescimento
cultural, inimaginável sem a linguagem, é indício
de que ela já estava plenamente estruturada naquela
época.
Falta de rastros
Ao confrontar a data do surgimento da espécie com a
do florescimento da cultura, há pesquisadores que defendem
a hipótese de que a linguagem teve desenvolvimento
vagaroso, crescendo em complexidade ao longo de milênios.
Outros, porém, consideram intrínseca a relação
entre a espécie e a linguagem e o prodigioso processo
pelo qual um bebê se torna falante. Afinal, uma criança
não começa a falar por simples imitação
ou por puro aprendizado a partir de um estágio zero,
como se o cérebro fosse uma caixa vazia. Por isso,
defendem que a linguagem como a conhecemos surgiu junto com
a espécie e está relacionada a uma mutação
radical
no conglomerado de genes dos hominídeos mais antigos.
No momento, não temos nenhuma base para optar entre
essas hipóteses. A linguagem falada é um bem
imaterial. Assim, de seu passado nada sobrou. Não temos,
por exemplo, o menor indício de como teria sido o estágio
semiótico imediatamente anterior à linguagem
propriamente humana, isto é, aquela anterior à
nossa linguagem.
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